VI-

o apito do trem, cada vez mais distante, era o sinal de que o tempo se aproximava. o tempo. que levou o trem. e a cancela que rodava. e a erva cidreira, mais forte que o trem e os trilhos. e o maquinista. a erva cidreira ainda. alguns pés o tempo não levou. tudo que havia diante dos meus olhos. e atrás de mim. tudo. o tempo levou. uma tisana verde que sorvo bem quente. a erva cideira do meu passado inteiro. o que restou. perfume.

V-

Gerarda, com sua pele negra e brilhante, chegava sempre sorrindo, com a cesta de ovos na mãos. esperar pelos ovos. colher os ovos. vender os ovos. fritar os ovos. a vida toda de Gerarda descrita com precisão.

IV-

do portão, posso ver Dona Cota na sua moldura de madeira apodrecida. balançando para frente e para trás. embalando memórias bem mais antigas do que suas janelas.

III-

redemoinhos pequenos de vento sempre no mesmo canto. eram sacis. Isaura é quem dizia enquanto se benzia. e o cheiro do cachimbo os atraía.

II-

enfileiradas, buchinhas aguardam para serem jogadas no fogo e explodir. e a folha delicada de outra árvore á espera. das mesmas mãos pequenas a arrancar-lhe a pele grossa e escura. até que se transforme em folha verde claro de pura seda. e os veios à mostra.

I-

a casa parecia saída de uma cidade em ruínas, ecravada ali no meio da cidade real. numero onze a casa já não tinha cor. era a mistura de todos os pós e chuvas de outras eras. e a escada era verde como os abacates manteiga do quintal.